Ele já estava endividado. A casa prestes a ser hipotecada. Carro na oficina e com o seguro expirado. A mulher, desesperada, sem saber como pagar o colégio do menino. O telefone tocava cobranças e mais compromissos. Voltar para a casa dos pais seria só o referendo da humilhação. Apostou na Mega Sena, procurou a Universal, conversou com um bêbado na esquina, maquinou um roubo ao banco, leu auto-ajuda, fez promessa de largar cigarro e o vício de xingar de negro, mesmo sabendo que seria impossível. Escreveu uma carta para Deus e depois se envergonhou do que tinha feito. Não chegava pedido na loja, além de não ter mais como repor o estoque. Dignidade de homem com a corda no pescoço é se matando mesmo. No dia seguinte, noticiaram a tragédia: "Dono de funerária se mata por dívidas, e falta caixão na sua empresa".
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
Sem Razão
Quem se atreve a escrever mais de três textos passa, certamente, por uma situação simples, se o cidadão tiver a cara-de-pau de responder aquilo que o outro não espera ouvir. "Você costuma escrever assim apenas quando está triste?". Contudo, se o companheiro se deixar levar pela pergunta, lá se vão dias e dias pensando nisso e nada mais - conheço um amigo que partiu com esse dilema e nunca mais voltou. Sem falar que a poesia não brota nem em forma de prosa e muito menos nem em música. Mero silêncio investigativo - às vezes quase vegetativo. Eu já tenho a minha resposta - por favor, não se atreva a me perguntar. É porque me calejei. João Cabral de Melo Neto, poeta pernambucano, mexeu com o que eu penso sobre criação literária, parafraseando: escrever poesia é artesanato, dá-se com o treino e repetição, não precisa de sentimentos. Com licença, mentira pura que me tira do sério! O escritor é antes de tudo um bom "sentidor". Sei que aqui acolá sente dor, mas a tristeza não é regra. Faz tempo que não escrevo pensando unicamente nos meus sentimentos, mas a letra surge de uma fisgada interior; escrever é escultura em alto-relevo de certas sensações. O dentro que se faz fora, na hora do faz de contas mais verossímil. Alguém pode pensar que estou com o ego ferido, e olha que ego ferido de escritor é sempre produtivo, matéria-prima de início de romance introspectivo. Acontece que passado muito tempo estou escrevendo a partir de pura emoção. Senti-me provocado com um comentário de uma mulher, não de uma mulher comum, mas justo daquela que sabe seqüestrar meus pensamentos. Talvez seja por isso que esteja escrevendo com sangue e veias abertas. Ela me rouba o conteúdo cognoscente. Então, o que me resta como "sucata" pra digitar neste calado teclado é o sentir por si só. Como fotografia de ultrassom, queria registrar meus sentido. Sinto muito por pensar quase nada neste instante. Mente vazia e a cama bagunçada, cheia de livros e umas camisas jogadas sem cheiro. Quase meditação oriental com inquietude de Picasso. Quero usar um ponto de exclamação, com o propósito catártico de uma revolução, mas não dá. Espera, que estou quase começando a pensar em imaginar como seria isso. Em vão. É melhor beber um copo d'água ou repirar um pouco com a alma, senão eu piro. Vou desligar o computador pra ouvir, com os poros da pele escancarados, Coldplay. Estou sentindo que em breve terei algum lampejo de pensamento, provavelmente do tipo que prefere não usar a razão...
domingo, 7 de outubro de 2007
Encontro Estável
Cangaceiro jamais: bandeirante sim - e por paixão. Desbravar, aventurar-se seguro, andar sem medo de temer, colocar os pés em território alheio, perceber um clima outro, novos pastos, paisagens novas, procurar o diferente como um meio de sobrevivência. Fundar cidades, ou, então, simples povoados, em que a privacidade se faz lei. Preservar a água limpa de beber do rio perto do acampamento. Deixar os animais descansando na sombra do juazeiro. Conjugar a saudade como um verbo inevitável. Alguém espera. Ainda há muito trabalho - melhor ir com calma, com a paciência de quem sobe a serra. À noite, há festa, e dança até quem, pela manhã, carregou peso, desengonçado. Os pés que fincaram passos, como quem demarca o próprio território, exibem contornos de um movimento coletivo dentro do corpo. A impressão não é a de quem caminha sem sair do lugar. Parece que se busca a beleza de um mundo visto pelo espelho. É hora de dormir. Amanhã haverá nova rotina. A terra morena guia o novo destino, e o murmulhar das árvores funcionam como uma trilha sonora silenciosa do momento que antecede o antes do amanhecer.
terça-feira, 2 de outubro de 2007
"Concha feliz não produz pérolas"
Não quero casar nem duas ou três vezes. Basta uma vez, desde que inteira. Se assim não for, não faço caso de conceber núpcias. Irei insistir apenas em uma só relação. É mais vital: um domingo calmo e devagar. O juanismo diário que busca um sorriso multifacetado no corpo que se improvisa em várias vestes. Sou clássico convicto a ponto de declamar o amor como o mais discreto dentre as forças mais potentes do mundo. E tão comum que me perco no anonimato de um cliclê-de-sobrenome-amor, no gueto alternativo. Bobo e infantil, me convenço de que não sou tão forte assim. Não tenho nenhuma tatuagem. Que encontre forças para lutar sob um estado de loucura. É mesmo irracional - concordo, meu amigo. Estou calmo, à mercê de um encontro estável. Sem as previsões do horóscopo e as narrativas das minhas aventuras de outrora, aquieto-me em pleno domingo. Isso já está virando repetição. Acho que já havia escrito tudo isto há uns anos na minha memória... Isso mesmo! E eu tinha dezesseis anos.
terça-feira, 25 de setembro de 2007
Comida de Urubu
- Matei antes que ela matasse.
Nem legítima defesa e muito menos instinto de preservação da espécie: queria apenas garantir o seu emprego, o seu umbigo e o seu vintém. Seu Moreira não deixaria barato, homem valente se empossado de sua Poderosa do tempo dos "coroné".
- Foi com pau "mermo", foi uma lapada segura, e a cobra se foi.
Malino e curioso, o netinho de Seu Moreira queria ver o corpo, reconhcer a raça e averigüar a profundidade do golpe fatal, tal um perito. Entrementes, todos lhe ocultavam o paradeiro do cadáver. Procurou o canivete suíço que ganhou de souvenir da avó, atribuindo a primeira serventia clara para o mesmo. E lembrou que as botas ficavam perto do estábulo.
- "Num" faz arte não, menino! Isso "né" coisa pra "tu". Se Seu Moreira sabe, ele te "asenta" a mão no pé "d'uvido".
Duvidando da conduta suspeita da criança, o próprio tio convalescente, doce e franzino, que estava de repouso médico na fazenda, veio admoestar, prevenindo qualquer dano. O argumento era o mais clichê possível, como novela das oito: "querem o seu bem". O entusiasmo científico de querer dissecar o corpo do animal e a vontade de abrir o desconhecido foram, sem dificuldades, anestesiados. Um entererro justo, porém, precisava oferecer à criatura, em forma de desafio característico de um menino de coração.
Saiu pela mata sem precisar para onde estaria indo. Até que o vaqueiro que matou a cobra encontrou-o a galope à sombra do juazeiro.
- Matei antes que ela matasse o "bezerrim" que teu avô te deu.
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
Sem Palavras
Fazia silêncio... (O mundo ali, naquele instante, mudo)... Fazia silêncio, mesmo com tantos carros buzinando asco e pressa. Calava-se o fim do dia, por não ter argumento mais forte que a própria crueldade. Era óbvio o clamor feito nas entranhas, que não conseguia atravessar o túnel da boca e fumaçar esperança. Engarrafado com uma cachaça, ia, pela calçada, o homem que produzia todo o embaraço. Vagava no meu emudecer. Tantos ruídos, e ruíam as palavras, patéticas e sem valor. Coitadinhas, não tinham culpa de nada! E fazia silêncio... Flanelinhas tentavam mostrar que não é bem assim: para manter a miséria, é mister um bocado de labor. Contudo, sem nada de vocábulos estava. E o homem com o saco nas costas caminhava, ziguizagueando de quem dele mesmo fugia. O trânsito continuava veloz, tal como de costume naquele horário. Entre tantos decibéis, entretanto, fazia silêncio. Até que o homem que mal-cheirava acenou-me a mão, diante daqueles estranhos, calando ainda mais os calos da minha língua e, cansado, bocejou "boa tarde, cavalheiro".
Reabilitação do Suspiro
Depois de uma ligação no domingo à tarde. Conversa rápida e bastante trivial, nada demais. Simplesmente, ele não entendeu como ficou daquele jeito. Como um gato que nem se incomoda e nem se atrapalha com o que vê diante do espelho, não sabia direito o que era aquilo. Apenas voltou a suspirar como um sonhador em turbilhão de fantasias concretas. E tudo isso por um telefonema...
Assinar:
Postagens (Atom)