Ele já estava endividado. A casa prestes a ser hipotecada. Carro na oficina e com o seguro expirado. A mulher, desesperada, sem saber como pagar o colégio do menino. O telefone tocava cobranças e mais compromissos. Voltar para a casa dos pais seria só o referendo da humilhação. Apostou na Mega Sena, procurou a Universal, conversou com um bêbado na esquina, maquinou um roubo ao banco, leu auto-ajuda, fez promessa de largar cigarro e o vício de xingar de negro, mesmo sabendo que seria impossível. Escreveu uma carta para Deus e depois se envergonhou do que tinha feito. Não chegava pedido na loja, além de não ter mais como repor o estoque. Dignidade de homem com a corda no pescoço é se matando mesmo. No dia seguinte, noticiaram a tragédia: "Dono de funerária se mata por dívidas, e falta caixão na sua empresa".
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
Sem Razão
Quem se atreve a escrever mais de três textos passa, certamente, por uma situação simples, se o cidadão tiver a cara-de-pau de responder aquilo que o outro não espera ouvir. "Você costuma escrever assim apenas quando está triste?". Contudo, se o companheiro se deixar levar pela pergunta, lá se vão dias e dias pensando nisso e nada mais - conheço um amigo que partiu com esse dilema e nunca mais voltou. Sem falar que a poesia não brota nem em forma de prosa e muito menos nem em música. Mero silêncio investigativo - às vezes quase vegetativo. Eu já tenho a minha resposta - por favor, não se atreva a me perguntar. É porque me calejei. João Cabral de Melo Neto, poeta pernambucano, mexeu com o que eu penso sobre criação literária, parafraseando: escrever poesia é artesanato, dá-se com o treino e repetição, não precisa de sentimentos. Com licença, mentira pura que me tira do sério! O escritor é antes de tudo um bom "sentidor". Sei que aqui acolá sente dor, mas a tristeza não é regra. Faz tempo que não escrevo pensando unicamente nos meus sentimentos, mas a letra surge de uma fisgada interior; escrever é escultura em alto-relevo de certas sensações. O dentro que se faz fora, na hora do faz de contas mais verossímil. Alguém pode pensar que estou com o ego ferido, e olha que ego ferido de escritor é sempre produtivo, matéria-prima de início de romance introspectivo. Acontece que passado muito tempo estou escrevendo a partir de pura emoção. Senti-me provocado com um comentário de uma mulher, não de uma mulher comum, mas justo daquela que sabe seqüestrar meus pensamentos. Talvez seja por isso que esteja escrevendo com sangue e veias abertas. Ela me rouba o conteúdo cognoscente. Então, o que me resta como "sucata" pra digitar neste calado teclado é o sentir por si só. Como fotografia de ultrassom, queria registrar meus sentido. Sinto muito por pensar quase nada neste instante. Mente vazia e a cama bagunçada, cheia de livros e umas camisas jogadas sem cheiro. Quase meditação oriental com inquietude de Picasso. Quero usar um ponto de exclamação, com o propósito catártico de uma revolução, mas não dá. Espera, que estou quase começando a pensar em imaginar como seria isso. Em vão. É melhor beber um copo d'água ou repirar um pouco com a alma, senão eu piro. Vou desligar o computador pra ouvir, com os poros da pele escancarados, Coldplay. Estou sentindo que em breve terei algum lampejo de pensamento, provavelmente do tipo que prefere não usar a razão...
domingo, 7 de outubro de 2007
Encontro Estável
Cangaceiro jamais: bandeirante sim - e por paixão. Desbravar, aventurar-se seguro, andar sem medo de temer, colocar os pés em território alheio, perceber um clima outro, novos pastos, paisagens novas, procurar o diferente como um meio de sobrevivência. Fundar cidades, ou, então, simples povoados, em que a privacidade se faz lei. Preservar a água limpa de beber do rio perto do acampamento. Deixar os animais descansando na sombra do juazeiro. Conjugar a saudade como um verbo inevitável. Alguém espera. Ainda há muito trabalho - melhor ir com calma, com a paciência de quem sobe a serra. À noite, há festa, e dança até quem, pela manhã, carregou peso, desengonçado. Os pés que fincaram passos, como quem demarca o próprio território, exibem contornos de um movimento coletivo dentro do corpo. A impressão não é a de quem caminha sem sair do lugar. Parece que se busca a beleza de um mundo visto pelo espelho. É hora de dormir. Amanhã haverá nova rotina. A terra morena guia o novo destino, e o murmulhar das árvores funcionam como uma trilha sonora silenciosa do momento que antecede o antes do amanhecer.
terça-feira, 2 de outubro de 2007
"Concha feliz não produz pérolas"
Não quero casar nem duas ou três vezes. Basta uma vez, desde que inteira. Se assim não for, não faço caso de conceber núpcias. Irei insistir apenas em uma só relação. É mais vital: um domingo calmo e devagar. O juanismo diário que busca um sorriso multifacetado no corpo que se improvisa em várias vestes. Sou clássico convicto a ponto de declamar o amor como o mais discreto dentre as forças mais potentes do mundo. E tão comum que me perco no anonimato de um cliclê-de-sobrenome-amor, no gueto alternativo. Bobo e infantil, me convenço de que não sou tão forte assim. Não tenho nenhuma tatuagem. Que encontre forças para lutar sob um estado de loucura. É mesmo irracional - concordo, meu amigo. Estou calmo, à mercê de um encontro estável. Sem as previsões do horóscopo e as narrativas das minhas aventuras de outrora, aquieto-me em pleno domingo. Isso já está virando repetição. Acho que já havia escrito tudo isto há uns anos na minha memória... Isso mesmo! E eu tinha dezesseis anos.
terça-feira, 25 de setembro de 2007
Comida de Urubu
- Matei antes que ela matasse.
Nem legítima defesa e muito menos instinto de preservação da espécie: queria apenas garantir o seu emprego, o seu umbigo e o seu vintém. Seu Moreira não deixaria barato, homem valente se empossado de sua Poderosa do tempo dos "coroné".
- Foi com pau "mermo", foi uma lapada segura, e a cobra se foi.
Malino e curioso, o netinho de Seu Moreira queria ver o corpo, reconhcer a raça e averigüar a profundidade do golpe fatal, tal um perito. Entrementes, todos lhe ocultavam o paradeiro do cadáver. Procurou o canivete suíço que ganhou de souvenir da avó, atribuindo a primeira serventia clara para o mesmo. E lembrou que as botas ficavam perto do estábulo.
- "Num" faz arte não, menino! Isso "né" coisa pra "tu". Se Seu Moreira sabe, ele te "asenta" a mão no pé "d'uvido".
Duvidando da conduta suspeita da criança, o próprio tio convalescente, doce e franzino, que estava de repouso médico na fazenda, veio admoestar, prevenindo qualquer dano. O argumento era o mais clichê possível, como novela das oito: "querem o seu bem". O entusiasmo científico de querer dissecar o corpo do animal e a vontade de abrir o desconhecido foram, sem dificuldades, anestesiados. Um entererro justo, porém, precisava oferecer à criatura, em forma de desafio característico de um menino de coração.
Saiu pela mata sem precisar para onde estaria indo. Até que o vaqueiro que matou a cobra encontrou-o a galope à sombra do juazeiro.
- Matei antes que ela matasse o "bezerrim" que teu avô te deu.
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
Sem Palavras
Fazia silêncio... (O mundo ali, naquele instante, mudo)... Fazia silêncio, mesmo com tantos carros buzinando asco e pressa. Calava-se o fim do dia, por não ter argumento mais forte que a própria crueldade. Era óbvio o clamor feito nas entranhas, que não conseguia atravessar o túnel da boca e fumaçar esperança. Engarrafado com uma cachaça, ia, pela calçada, o homem que produzia todo o embaraço. Vagava no meu emudecer. Tantos ruídos, e ruíam as palavras, patéticas e sem valor. Coitadinhas, não tinham culpa de nada! E fazia silêncio... Flanelinhas tentavam mostrar que não é bem assim: para manter a miséria, é mister um bocado de labor. Contudo, sem nada de vocábulos estava. E o homem com o saco nas costas caminhava, ziguizagueando de quem dele mesmo fugia. O trânsito continuava veloz, tal como de costume naquele horário. Entre tantos decibéis, entretanto, fazia silêncio. Até que o homem que mal-cheirava acenou-me a mão, diante daqueles estranhos, calando ainda mais os calos da minha língua e, cansado, bocejou "boa tarde, cavalheiro".
Reabilitação do Suspiro
Depois de uma ligação no domingo à tarde. Conversa rápida e bastante trivial, nada demais. Simplesmente, ele não entendeu como ficou daquele jeito. Como um gato que nem se incomoda e nem se atrapalha com o que vê diante do espelho, não sabia direito o que era aquilo. Apenas voltou a suspirar como um sonhador em turbilhão de fantasias concretas. E tudo isso por um telefonema...
sábado, 22 de setembro de 2007
A Mulher de Vestido
Era tarde. Acabara de levantar há pouco. Fui dormir quando era já dia claro. Tomei o café-da-manhã, como se fosse, por extensão e pelo horário, almoço e jantar juntos, enquanto procurava roupa limpa. Diante do espelho, busquei as reminiscências do sonho recente, mas em vão. Decepcionado, soletrei, então, as palavras que subiam na tela da televisão com dicção surda e lenta, dessincronizadas do áudio do vídeo do apresentador do jornal local. Eu queria digerir as idéias dos outros, como se fossem minhas. Também não ouvir som algum. Estava em silêncio. O violão, sem cordas e empoeirado, estava jogado sobre a cama, próximo a livros de poesia, como se pretendesse tocar apenas as letras ritmadas, excluindo as suas melodias. Com isso, o violão intentava cantar unicamente as palavras dos sonetos, mas de forma que fosse uma música não-sonora. Imagens oníricas perdidas, Closed Caption e música sem linha melódica. O silêncio acompanhava-me no quarto, como se fosse meu pseudópodo.
Saí atrasado de casa. Enraiveci por caminhar atrás do tempo. Isso me incomoda, assim como sono cortado pela metade. Minha mãe acordou-me, por achar que o hábito de dormir até tarde é sintoma de depressão. Abrindo o portão, importunei o meu silêncio com um ruído descuidado. Minha mãe correu para assistir-me, acreditando tratar-se de problema sério. Ruído soa-lhe como contratempo; e silêncio, como doença.
No meio do tempo, cheguei ao curso de política, meu novo passa-tempo intelectual, cabisbaixo e procurando um lugar atrás, como quem tem vergonha do que faz. Uma voz com ressonância prolongada notou-me na condição de silêncio. “Senta aqui atrás”. Eu não queria sentar onde havia me aconselhado, em tom de súplica, contudo, pelo olhar com que me convocou, não tive como contrariar.
Eu a conheci distraído, como se fosse forasteiro. Ela, na cantina, depositou sua bolsa na cadeira do meu lado, como quem investe seguro na Bolsa de Valores. Sorria com a sua calma característica, que a mim parece discrição. Não demarcava território ou exigia espaço. Estava tranqüila, a fim de verificar o que a inquietava, como quem se interessa por causa sem importância. Meus olhos já a tinham percebido, e os meus ouvidos, por enquanto, eram-lhe estranhos. Seu timbre de voz não era o mesmo que imaginara antes. Um pouco mais firme e encorpado, com boa articulação, no começo baixo e, com o desenrolar da conversa, reverbera com volume presencial. Eu nunca aprendi quando encerrava a frase. Por vezes, cortei-a no meio da idéia, da mesma forma que a minha mãe faz com o meu sono vespertino. Ela, porém, não se enreaivecia como eu faço. Sorria devagar e esperava o retorno do meu silêncio, como o pêndulo de um relógio de parede. Entre a sua fala e a minha interrupção, ela também sorria, como quem pensa que o outro não está a entender e, portanto, merece ouvir de novo a oração.
A primeira conversa foi sem graça. Procurávamos apenas os interesses comuns, que eram poucos. A melhor parte era quando o meu olhar capturava, por completo, o olhar inicialmente misterioso que ela expressava. Sentia que as palavras eram desnecessárias, como no silêncio. Do mistério à admiração inexplicável, as gradações do seu olhar instigavam o meu discernimento. Tive a sensação de que a conhecia de algum lugar distante. Talvez fosse alguma personagem do meu sonho interrompido. Eu estava a ver uma mulher revelar o seu rosto. Era uma bailarina dançando no capô de um carro. Ela desejava mostrar-se, dizer-me quem é e quais as suas manias. Suas cores eu não lembro, pois meus sonhos são sempre em preto e branco. No instante que viraria a face a ponto de eu poder identificar a artista, minha mãe, porém, acordou-me.
Talvez seja, na verdade, a entrevistada pelo repórter rabugento, cuja matéria acompanhei, em Closed Caption, ao vestir a blusa rosa levemente amassada, saindo do quarto. Se eu tivesse ouvido a voz da mulher que informava sobre a legislação ecológica na perspectiva dos interesses de uma tribo longínqua, poderia afiançar ou retificar a minha suspeita. Ela não tem cara, entretanto, de que dá entrevista assim sem mais nem menos a um homem rabugento e que usa camisa quadriculada pela manhã.
Antes do ano, existe o mês. Antes do mês, existe a semana. Antes da semana, existe o dia. Antes do dia, existe a hora. Antes da hora, existe o minuto. Antes do minuto, existe o segundo. E antes do tempo do segundo, existe o momento que antecede o próprio tempo, o pré-instante, na ordem da intuição e impressão aguçada. O pré-instante é a oportunidade de imprimir marcas ao coração.
O encontro dos nossos olhares dava-se na condição de pré-instante. Por estar antes do tempo, eu não entendia o que acontecia. Para agravar a minha ignorância, eu andava sempre atrasado, depois do tempo. O retardo do que antecede. O início do começo - talvez. Até que uma vez flagrei-me diante do espelho com o clamor “o que se passa comigo quando a vejo?”.
As aulas perderam em importância, e eu julgava prejudicado o meu rendimento. Decidi pedir a ajuda a um dos monitores, quando descobri que ela também era monitora. A minha obsessão mostrou-se, enfim, quando percebi que ela lembrava a minha ex-namorada. Elas sequer assemelham-se, mas, por amar esta, queria encontrar sempre um motivo para trazê-la à lembrança, mecanismo de perpetuação do amor.
Uma voz com ressonância prolongada notou-me na condição de silêncio. “Senta aqui atrás”. Eu não queria sentar onde havia me aconselhado, em tom de súplica, contudo, pelo olhar com que me convocou, não tive como contrariar. Estava preso, sem saber, no círculo que a fazia parte integrante do meu cotidiano.
Ela se levantou e trocou de lugar para ficar ao lado do lugar que me indicara, como quem muda de opinião, por entender que a outra forma é a mais coerente. Fingi ler Clarice, mas eu pressentia que ela esperava que eu a olhasse, como o espirro prenuncia a gripe. Ela também resolveu ler um livro e, com a unha esmaltada em grená, sublinhava cada palavra lida. Eu não devia olhá-la, pois ou nutriria esperança para o retorno do namoro interrompido pela incompreensão ou sofreria, em silêncio, a dor do rompimento de uma relação na qual muito investi. O sofrimento às vezes é necessário, principalmente para o amadurecimento. Contudo, o jeito com que seu dedo percorria a folha do livro fascinava-me, como quem dá importância ao que não é óbvio.
Toquei a sua mão, enquanto ela tocava o meu juízo. Desejei contar-lhe aquela mesma história de sempre, a qual nos fazia rir fácil. E dessa vez, ela não entenderia. Coloquei, então, as mãos na minha cabeça e segurei os cabelos, como quem arranca sujeira que gruda nos pêlos. Ela começou a rir com o meu embaraço e, quando o seu riso extinguiria, prolongou o momento de não-silêncio com uma frase dita mais com o sorriso do que com os lábios, como quem anela postergar o clímax. “Você é uma figura”. Aceitei-a em forma de elogio e, por educação espontânea, agradeci com o silêncio. E ficamos ali em silêncio... Toquei novamente a sua mão, como quem beija o rosto de mãe. Comunicávamos-nos como os peixes do rio.
Ela riu novamente. Desta vez só para me provocar. E o meu silêncio ficou ainda mais mudo. Senti até um amargor no final da língua. Não era o sabor residual da bebida do dia anterior. Era o gosto do silêncio. Fiz uma careta, como quem se assusta de coisa pouca, e ela riu e riu. “Você não toma jeito”.
Sua postura era toda certinha, e ela movimentava o corpo com uma sincronia inédita. Suas mãos eram pequeninas e curiosas. Suas unhas grenás eram testemunhas da sua meiguice inconstante. Sua pele era branca, clara e alva – apenas para redundar a minha visão. Seu corpo magro erigia-se com elegância real. Seu rosto quadrado facilitava que os meus olhos o enquadrassem. Seu nariz afilado dobrava e apontava para os seus lábios cada vez que ela sorria. Seus olhos meio puxados, com ar oriental, transpareciam a possibilidade de um novo mundo. Suas sobrancelhas delgadas fluíam como um rio perene à minha atenção. Seu pescoço era mexido com espasmo, quase em êxtase. Seu olhar era sublime e radioso. Seus cabelos lisos e curtos sempre amarrados evidenciavam a negrura de uma franja discreta que arquejava com qualquer vento ou assobio. Seus pés, com sandália rasteira, davam-me a sensação de que ela já havia rodopiado em capô de carro, como a bailarina do meu sonho.
Enquanto a visualizava dançando em sonho, perguntei se ela já tinha feito balé. Sem se surpreender, ela me responde perguntando “já, por quê?”, como quem lança para o outro a responsabilidade. Porque seus pés, assim como o seu corpo, são de delicadeza e disciplina incomum. “Luto aikidô há doze anos”. Gelei por achar que estava em uma fria. Ela, para contornar ao meu constrangimento, como se fosse corriqueiro o espanto diante daquela afirmação, ergue rápido e de leve o vestido e cruza as pernas. A posição não deve ter sido cômoda, haja vista que levantara com avidez o vestido, descruzara e cruzara as pernas em sentido oposto. Parecia que o seu vestido era uma vitrine de variadas pernas. Eu fiquei sem pernas. A cena de levante do vestido e do cruzamento de pernas era o pré-instante do meu deleite, como se fosse o negativo de uma fotografia.
“Engraçado. Você parece um amigo que faz Economia”. Ela proferiu como quem fala sério ou desmente calúnia sem prejuízo de expressão. Eu lhe interrompi a fala, como se a frase, por si, estivesse completa, mas ela continuou a falar, como se o que eu dissesse fosse desvario ou incompreensão. “Mas pensando bem... Você tem cara de quem gosta de escadarias”. O sorriso foi o ponto final da locução, como quem escreve carta sabendo que o destinatário entenderá as ironias.
No intervalo, decidimos ir lanchar em uma praça próxima, cujo atalho dava por uma ruela erma e lúgubre. Ao murmulhar de uma árvore que mais se parecia com um monstro infantil, pensei em sentir medo, vestígio dum pré-instante, mas me lembrei de que ela era professora de arte marcial. Senti-me seguro, com ela, no escuro. A certeza de sua habilidade combativa inflou-me o ânimo, e eu mantinha o silêncio. E se fosse blefe da sua parte? Eu estaria iludido. Desejei provar a veracidade. Como se ela interpretasse o meu pensamento ao invés de comportar-se convalescida, mostrou-me uns hematomas pelo braço e disse que as suas pernas estavam de igual modo. Fiquei emocionado momentaneamente até ela dizer que uma vez botou para correr de sua casa, com um cabo de vassoura, um bandido que atirara três vezes em sua direção.
Na caminhada, o vento tentava, em vão, implicar com o vestido, o qual, com disciplina, embora mexido, orgulhava-se firme. Eu sabia que não era um encontro - apenas uma saída informal. Ela, antevendo o meu pensamento, substitui o lanche por uma entrada em um restaurante. Com isso, eu cogitei um encontro, mas melhor seria continuar em silêncio.
Ela pediu uísque, como quem tem a tendência de ficar à minha frente. Como as palavras são preciosas e eu faço gosto de usá-las com precisão, soltei um elogio da mesma forma que o menino solta pipa independente do céu. Depois descobri sem esforço que ela adora pipas.
- Você fica especialmente bela de vestido.
- Eu sempre uso vestido.
- Então, você confirmou a minha teoria.
- Que teoria?
- Que você é sempre bela.
Ela sorriu, e eu flagrei a abertura dos seus lábios em estado de sorriso. Seu corpo inclusive quedou-se em elegância requintada. Depois ela ajeitou a franja, que, independente, voltou para o mesmo lugar. Tive a impressão de que ela iria falar, enquanto recebia a dose do garçom, mas ela apenas meneou a cabeça e sorriu com os lábios cerrados, em sinal de agradecimento, mostrando-me o que outrora não havia percebido: um sinal discretíssimo no lábio superior, semelhante ao da minha ex-namorada. Para evitar outro estorvo, decidi acreditar que o que acontecia ali era a continuação do sonho cortado pela metade, pela minha mãe.
A bebida desceu quente, e senti uma implosão térmica. Tive a sensação de que estava com febre. Acho que me assustei com violência. Ela não notou porque estava observando um casal da mesa ao lado, por imaginar que se tratava do namorado antigo de sua vizinha de condomínio. Estava pensando em preparar-me para levantar e dirigir-me ao banheiro, em pré-instante, quando ela, dessa vez sem captar o meu pensamento, toca a minha mão e diz o que não deveria ser dito naquele momento:
- Estou feliz neste momento como há muito não estive.
Seguindo o script, cortei o final do seu desabafo com uma frase difícil, quase inefável, que se trancou na garganta, de modo que o que eu consegui foi tossir para desengasgar. Ela continuou falando palavras que eu não consegui discernir, mas entendi o seu sentido inteiro quando ela teve um acesso de riso. A sua reação era tão clara quanto a sua pele, que se avermelhou nas maçãs. Eu conjuguei no gerúndio o silêncio.
Respirei fundo e olhei dali mesmo sentado o aquário que ornamentava a parede do canto esquerdo do restaurante. Não sei por que, mas, por instantes, imaginei que estava em um ambiente temático com gastronomia especial, como um sushi bar, por exemplo, quando os seus olhos levemente orientais vinham-me fechados e suspensos. Não sei se ela sorria enquanto se deslocava, pois eu me fixei a contemplar a expressão dos seus olhos extasiados, em pré-instante do beijo, o negativo da fotografia da felicidade vindoura. As bocas se beijam quando estão caladas, e o silêncio ecoou pelo estabelecimento e vibrou em ondas tímidas no aquário, enquanto os peixes brincavam.
Enquanto beijávamos, ela sussurrava palavras arcaicas, e, de cor, eu as capturava com a língua original. Muitas vezes ela trocava um artigo por outro, conjugava erroneamente verbos desconexos e não sabia quando empregava crase. Quando errava, era quando mais aprendíamos, sem que ninguém nos ensinasse. Escrevemos um parágrafo romanesco, e ela apagou tudo sem usar borracha, pois queria mesmo abusar da métrica de um soneto petrarquiano, que até então eu não entendia muito bem. Aos poucos, segurei a borda do seu vestido, amassando-o, fechando a palma da mão como quem se segura para não perder o controle. Não sei se ela se afastou com a mesma expresão com que havia se aproximado, pois me fixei desta vez a comtemplar seus lábios, que não sorriam e nem falavam, imitavam, por alto, a boca de um peixe do aquário.
Era tarde. Acabara de levantar há pouco. Fui dormir quando era já dia claro. Tomei o café-da-manhã, como se fosse, por extensão e pelo horário, almoço e jantar juntos, enquanto procurava roupa limpa. Diante do espelho, busquei as reminiscências do sonho recente, mas em vão. Decepcionado, soletrei, então, as palavras que subiam na tela da televisão com dicção surda e lenta, dessincronizadas do áudio do vídeo do apresentador do jornal local. Eu queria digerir as idéias dos outros, como se fossem minhas. Também não ouvir som algum. Estava em silêncio. O violão, sem cordas e empoeirado, estava jogado sobre a cama, próximo a livros de poesia, como se pretendesse tocar apenas as letras ritmadas, excluindo as suas melodias. Com isso, o violão intentava cantar unicamente as palavras dos sonetos, mas de forma que fosse uma música não-sonora. Imagens oníricas perdidas, Closed Caption e música sem linha melódica. O silêncio acompanhava-me no quarto, como se fosse meu pseudópodo.
Saí atrasado de casa. Enraiveci por caminhar atrás do tempo. Isso me incomoda, assim como sono cortado pela metade. Minha mãe acordou-me, por achar que o hábito de dormir até tarde é sintoma de depressão. Abrindo o portão, importunei o meu silêncio com um ruído descuidado. Minha mãe correu para assistir-me, acreditando tratar-se de problema sério. Ruído soa-lhe como contratempo; e silêncio, como doença.
No meio do tempo, cheguei ao curso de política, meu novo passa-tempo intelectual, cabisbaixo e procurando um lugar atrás, como quem tem vergonha do que faz. Uma voz com ressonância prolongada notou-me na condição de silêncio. “Senta aqui atrás”. Eu não queria sentar onde havia me aconselhado, em tom de súplica, contudo, pelo olhar com que me convocou, não tive como contrariar.
Eu a conheci distraído, como se fosse forasteiro. Ela, na cantina, depositou sua bolsa na cadeira do meu lado, como quem investe seguro na Bolsa de Valores. Sorria com a sua calma característica, que a mim parece discrição. Não demarcava território ou exigia espaço. Estava tranqüila, a fim de verificar o que a inquietava, como quem se interessa por causa sem importância. Meus olhos já a tinham percebido, e os meus ouvidos, por enquanto, eram-lhe estranhos. Seu timbre de voz não era o mesmo que imaginara antes. Um pouco mais firme e encorpado, com boa articulação, no começo baixo e, com o desenrolar da conversa, reverbera com volume presencial. Eu nunca aprendi quando encerrava a frase. Por vezes, cortei-a no meio da idéia, da mesma forma que a minha mãe faz com o meu sono vespertino. Ela, porém, não se enreaivecia como eu faço. Sorria devagar e esperava o retorno do meu silêncio, como o pêndulo de um relógio de parede. Entre a sua fala e a minha interrupção, ela também sorria, como quem pensa que o outro não está a entender e, portanto, merece ouvir de novo a oração.
A primeira conversa foi sem graça. Procurávamos apenas os interesses comuns, que eram poucos. A melhor parte era quando o meu olhar capturava, por completo, o olhar inicialmente misterioso que ela expressava. Sentia que as palavras eram desnecessárias, como no silêncio. Do mistério à admiração inexplicável, as gradações do seu olhar instigavam o meu discernimento. Tive a sensação de que a conhecia de algum lugar distante. Talvez fosse alguma personagem do meu sonho interrompido. Eu estava a ver uma mulher revelar o seu rosto. Era uma bailarina dançando no capô de um carro. Ela desejava mostrar-se, dizer-me quem é e quais as suas manias. Suas cores eu não lembro, pois meus sonhos são sempre em preto e branco. No instante que viraria a face a ponto de eu poder identificar a artista, minha mãe, porém, acordou-me.
Talvez seja, na verdade, a entrevistada pelo repórter rabugento, cuja matéria acompanhei, em Closed Caption, ao vestir a blusa rosa levemente amassada, saindo do quarto. Se eu tivesse ouvido a voz da mulher que informava sobre a legislação ecológica na perspectiva dos interesses de uma tribo longínqua, poderia afiançar ou retificar a minha suspeita. Ela não tem cara, entretanto, de que dá entrevista assim sem mais nem menos a um homem rabugento e que usa camisa quadriculada pela manhã.
Antes do ano, existe o mês. Antes do mês, existe a semana. Antes da semana, existe o dia. Antes do dia, existe a hora. Antes da hora, existe o minuto. Antes do minuto, existe o segundo. E antes do tempo do segundo, existe o momento que antecede o próprio tempo, o pré-instante, na ordem da intuição e impressão aguçada. O pré-instante é a oportunidade de imprimir marcas ao coração.
O encontro dos nossos olhares dava-se na condição de pré-instante. Por estar antes do tempo, eu não entendia o que acontecia. Para agravar a minha ignorância, eu andava sempre atrasado, depois do tempo. O retardo do que antecede. O início do começo - talvez. Até que uma vez flagrei-me diante do espelho com o clamor “o que se passa comigo quando a vejo?”.
As aulas perderam em importância, e eu julgava prejudicado o meu rendimento. Decidi pedir a ajuda a um dos monitores, quando descobri que ela também era monitora. A minha obsessão mostrou-se, enfim, quando percebi que ela lembrava a minha ex-namorada. Elas sequer assemelham-se, mas, por amar esta, queria encontrar sempre um motivo para trazê-la à lembrança, mecanismo de perpetuação do amor.
Uma voz com ressonância prolongada notou-me na condição de silêncio. “Senta aqui atrás”. Eu não queria sentar onde havia me aconselhado, em tom de súplica, contudo, pelo olhar com que me convocou, não tive como contrariar. Estava preso, sem saber, no círculo que a fazia parte integrante do meu cotidiano.
Ela se levantou e trocou de lugar para ficar ao lado do lugar que me indicara, como quem muda de opinião, por entender que a outra forma é a mais coerente. Fingi ler Clarice, mas eu pressentia que ela esperava que eu a olhasse, como o espirro prenuncia a gripe. Ela também resolveu ler um livro e, com a unha esmaltada em grená, sublinhava cada palavra lida. Eu não devia olhá-la, pois ou nutriria esperança para o retorno do namoro interrompido pela incompreensão ou sofreria, em silêncio, a dor do rompimento de uma relação na qual muito investi. O sofrimento às vezes é necessário, principalmente para o amadurecimento. Contudo, o jeito com que seu dedo percorria a folha do livro fascinava-me, como quem dá importância ao que não é óbvio.
Toquei a sua mão, enquanto ela tocava o meu juízo. Desejei contar-lhe aquela mesma história de sempre, a qual nos fazia rir fácil. E dessa vez, ela não entenderia. Coloquei, então, as mãos na minha cabeça e segurei os cabelos, como quem arranca sujeira que gruda nos pêlos. Ela começou a rir com o meu embaraço e, quando o seu riso extinguiria, prolongou o momento de não-silêncio com uma frase dita mais com o sorriso do que com os lábios, como quem anela postergar o clímax. “Você é uma figura”. Aceitei-a em forma de elogio e, por educação espontânea, agradeci com o silêncio. E ficamos ali em silêncio... Toquei novamente a sua mão, como quem beija o rosto de mãe. Comunicávamos-nos como os peixes do rio.
Ela riu novamente. Desta vez só para me provocar. E o meu silêncio ficou ainda mais mudo. Senti até um amargor no final da língua. Não era o sabor residual da bebida do dia anterior. Era o gosto do silêncio. Fiz uma careta, como quem se assusta de coisa pouca, e ela riu e riu. “Você não toma jeito”.
Sua postura era toda certinha, e ela movimentava o corpo com uma sincronia inédita. Suas mãos eram pequeninas e curiosas. Suas unhas grenás eram testemunhas da sua meiguice inconstante. Sua pele era branca, clara e alva – apenas para redundar a minha visão. Seu corpo magro erigia-se com elegância real. Seu rosto quadrado facilitava que os meus olhos o enquadrassem. Seu nariz afilado dobrava e apontava para os seus lábios cada vez que ela sorria. Seus olhos meio puxados, com ar oriental, transpareciam a possibilidade de um novo mundo. Suas sobrancelhas delgadas fluíam como um rio perene à minha atenção. Seu pescoço era mexido com espasmo, quase em êxtase. Seu olhar era sublime e radioso. Seus cabelos lisos e curtos sempre amarrados evidenciavam a negrura de uma franja discreta que arquejava com qualquer vento ou assobio. Seus pés, com sandália rasteira, davam-me a sensação de que ela já havia rodopiado em capô de carro, como a bailarina do meu sonho.
Enquanto a visualizava dançando em sonho, perguntei se ela já tinha feito balé. Sem se surpreender, ela me responde perguntando “já, por quê?”, como quem lança para o outro a responsabilidade. Porque seus pés, assim como o seu corpo, são de delicadeza e disciplina incomum. “Luto aikidô há doze anos”. Gelei por achar que estava em uma fria. Ela, para contornar ao meu constrangimento, como se fosse corriqueiro o espanto diante daquela afirmação, ergue rápido e de leve o vestido e cruza as pernas. A posição não deve ter sido cômoda, haja vista que levantara com avidez o vestido, descruzara e cruzara as pernas em sentido oposto. Parecia que o seu vestido era uma vitrine de variadas pernas. Eu fiquei sem pernas. A cena de levante do vestido e do cruzamento de pernas era o pré-instante do meu deleite, como se fosse o negativo de uma fotografia.
“Engraçado. Você parece um amigo que faz Economia”. Ela proferiu como quem fala sério ou desmente calúnia sem prejuízo de expressão. Eu lhe interrompi a fala, como se a frase, por si, estivesse completa, mas ela continuou a falar, como se o que eu dissesse fosse desvario ou incompreensão. “Mas pensando bem... Você tem cara de quem gosta de escadarias”. O sorriso foi o ponto final da locução, como quem escreve carta sabendo que o destinatário entenderá as ironias.
No intervalo, decidimos ir lanchar em uma praça próxima, cujo atalho dava por uma ruela erma e lúgubre. Ao murmulhar de uma árvore que mais se parecia com um monstro infantil, pensei em sentir medo, vestígio dum pré-instante, mas me lembrei de que ela era professora de arte marcial. Senti-me seguro, com ela, no escuro. A certeza de sua habilidade combativa inflou-me o ânimo, e eu mantinha o silêncio. E se fosse blefe da sua parte? Eu estaria iludido. Desejei provar a veracidade. Como se ela interpretasse o meu pensamento ao invés de comportar-se convalescida, mostrou-me uns hematomas pelo braço e disse que as suas pernas estavam de igual modo. Fiquei emocionado momentaneamente até ela dizer que uma vez botou para correr de sua casa, com um cabo de vassoura, um bandido que atirara três vezes em sua direção.
Na caminhada, o vento tentava, em vão, implicar com o vestido, o qual, com disciplina, embora mexido, orgulhava-se firme. Eu sabia que não era um encontro - apenas uma saída informal. Ela, antevendo o meu pensamento, substitui o lanche por uma entrada em um restaurante. Com isso, eu cogitei um encontro, mas melhor seria continuar em silêncio.
Ela pediu uísque, como quem tem a tendência de ficar à minha frente. Como as palavras são preciosas e eu faço gosto de usá-las com precisão, soltei um elogio da mesma forma que o menino solta pipa independente do céu. Depois descobri sem esforço que ela adora pipas.
- Você fica especialmente bela de vestido.
- Eu sempre uso vestido.
- Então, você confirmou a minha teoria.
- Que teoria?
- Que você é sempre bela.
Ela sorriu, e eu flagrei a abertura dos seus lábios em estado de sorriso. Seu corpo inclusive quedou-se em elegância requintada. Depois ela ajeitou a franja, que, independente, voltou para o mesmo lugar. Tive a impressão de que ela iria falar, enquanto recebia a dose do garçom, mas ela apenas meneou a cabeça e sorriu com os lábios cerrados, em sinal de agradecimento, mostrando-me o que outrora não havia percebido: um sinal discretíssimo no lábio superior, semelhante ao da minha ex-namorada. Para evitar outro estorvo, decidi acreditar que o que acontecia ali era a continuação do sonho cortado pela metade, pela minha mãe.
A bebida desceu quente, e senti uma implosão térmica. Tive a sensação de que estava com febre. Acho que me assustei com violência. Ela não notou porque estava observando um casal da mesa ao lado, por imaginar que se tratava do namorado antigo de sua vizinha de condomínio. Estava pensando em preparar-me para levantar e dirigir-me ao banheiro, em pré-instante, quando ela, dessa vez sem captar o meu pensamento, toca a minha mão e diz o que não deveria ser dito naquele momento:
- Estou feliz neste momento como há muito não estive.
Seguindo o script, cortei o final do seu desabafo com uma frase difícil, quase inefável, que se trancou na garganta, de modo que o que eu consegui foi tossir para desengasgar. Ela continuou falando palavras que eu não consegui discernir, mas entendi o seu sentido inteiro quando ela teve um acesso de riso. A sua reação era tão clara quanto a sua pele, que se avermelhou nas maçãs. Eu conjuguei no gerúndio o silêncio.
Respirei fundo e olhei dali mesmo sentado o aquário que ornamentava a parede do canto esquerdo do restaurante. Não sei por que, mas, por instantes, imaginei que estava em um ambiente temático com gastronomia especial, como um sushi bar, por exemplo, quando os seus olhos levemente orientais vinham-me fechados e suspensos. Não sei se ela sorria enquanto se deslocava, pois eu me fixei a contemplar a expressão dos seus olhos extasiados, em pré-instante do beijo, o negativo da fotografia da felicidade vindoura. As bocas se beijam quando estão caladas, e o silêncio ecoou pelo estabelecimento e vibrou em ondas tímidas no aquário, enquanto os peixes brincavam.
Enquanto beijávamos, ela sussurrava palavras arcaicas, e, de cor, eu as capturava com a língua original. Muitas vezes ela trocava um artigo por outro, conjugava erroneamente verbos desconexos e não sabia quando empregava crase. Quando errava, era quando mais aprendíamos, sem que ninguém nos ensinasse. Escrevemos um parágrafo romanesco, e ela apagou tudo sem usar borracha, pois queria mesmo abusar da métrica de um soneto petrarquiano, que até então eu não entendia muito bem. Aos poucos, segurei a borda do seu vestido, amassando-o, fechando a palma da mão como quem se segura para não perder o controle. Não sei se ela se afastou com a mesma expresão com que havia se aproximado, pois me fixei desta vez a comtemplar seus lábios, que não sorriam e nem falavam, imitavam, por alto, a boca de um peixe do aquário.
Era eu quem ia falar, mas também fui eu quem foi interrompido.
- Estou feliz neste momento como há muito não estive. É mesmo...
Eu me intrometi no desabafo, como quem se sente ofendido por receber as costas. Eu quis romper radicalmente com o meu silêncio pessoal, gritando. Gritar, porém, com uma mulher é muito descabido. Preferi suspirar prolongado. Suspirei como quem se alivia da dor, da dor de muito amar, da dor que dói sem doer. Não preciso mais de madrugadas e uísque. Aliviei-me, enquanto passeava a mão pelo vestido. Pressenti que ela precisava que eu improvisasse alguma teoria nova apenas para fazê-la sorrir e, vendo-a sorrir, eu sorriria também, como quem se contagia de uma epidemia.
- Felicidade é mau presságio. É aviso precavido. É estar-se pleno. É clímax altivo que não pode ser prolongado. É desfecho. É o fim terreno e o passaporte celestial. É uma fotografia que fica guardada na cabeceira da cama, pois um instante como este nunca se repetirá no decorrer dos séculos.
As pessoas e os fatos desta obra são tão reais quanto o universo desta ficção.
- Estou feliz neste momento como há muito não estive. É mesmo...
Eu me intrometi no desabafo, como quem se sente ofendido por receber as costas. Eu quis romper radicalmente com o meu silêncio pessoal, gritando. Gritar, porém, com uma mulher é muito descabido. Preferi suspirar prolongado. Suspirei como quem se alivia da dor, da dor de muito amar, da dor que dói sem doer. Não preciso mais de madrugadas e uísque. Aliviei-me, enquanto passeava a mão pelo vestido. Pressenti que ela precisava que eu improvisasse alguma teoria nova apenas para fazê-la sorrir e, vendo-a sorrir, eu sorriria também, como quem se contagia de uma epidemia.
- Felicidade é mau presságio. É aviso precavido. É estar-se pleno. É clímax altivo que não pode ser prolongado. É desfecho. É o fim terreno e o passaporte celestial. É uma fotografia que fica guardada na cabeceira da cama, pois um instante como este nunca se repetirá no decorrer dos séculos.
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