terça-feira, 25 de setembro de 2007

Comida de Urubu

- Matei antes que ela matasse.
Nem legítima defesa e muito menos instinto de preservação da espécie: queria apenas garantir o seu emprego, o seu umbigo e o seu vintém. Seu Moreira não deixaria barato, homem valente se empossado de sua Poderosa do tempo dos "coroné".
- Foi com pau "mermo", foi uma lapada segura, e a cobra se foi.
Malino e curioso, o netinho de Seu Moreira queria ver o corpo, reconhcer a raça e averigüar a profundidade do golpe fatal, tal um perito. Entrementes, todos lhe ocultavam o paradeiro do cadáver. Procurou o canivete suíço que ganhou de souvenir da avó, atribuindo a primeira serventia clara para o mesmo. E lembrou que as botas ficavam perto do estábulo.
- "Num" faz arte não, menino! Isso "né" coisa pra "tu". Se Seu Moreira sabe, ele te "asenta" a mão no pé "d'uvido".
Duvidando da conduta suspeita da criança, o próprio tio convalescente, doce e franzino, que estava de repouso médico na fazenda, veio admoestar, prevenindo qualquer dano. O argumento era o mais clichê possível, como novela das oito: "querem o seu bem". O entusiasmo científico de querer dissecar o corpo do animal e a vontade de abrir o desconhecido foram, sem dificuldades, anestesiados. Um entererro justo, porém, precisava oferecer à criatura, em forma de desafio característico de um menino de coração.
Saiu pela mata sem precisar para onde estaria indo. Até que o vaqueiro que matou a cobra encontrou-o a galope à sombra do juazeiro.
- Matei antes que ela matasse o "bezerrim" que teu avô te deu.

Um comentário:

Anônimo disse...

que descrição de realidade...
vc é bom nisso!
(que clichê)
rs