segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Sem Palavras

Fazia silêncio... (O mundo ali, naquele instante, mudo)... Fazia silêncio, mesmo com tantos carros buzinando asco e pressa. Calava-se o fim do dia, por não ter argumento mais forte que a própria crueldade. Era óbvio o clamor feito nas entranhas, que não conseguia atravessar o túnel da boca e fumaçar esperança. Engarrafado com uma cachaça, ia, pela calçada, o homem que produzia todo o embaraço. Vagava no meu emudecer. Tantos ruídos, e ruíam as palavras, patéticas e sem valor. Coitadinhas, não tinham culpa de nada! E fazia silêncio... Flanelinhas tentavam mostrar que não é bem assim: para manter a miséria, é mister um bocado de labor. Contudo, sem nada de vocábulos estava. E o homem com o saco nas costas caminhava, ziguizagueando de quem dele mesmo fugia. O trânsito continuava veloz, tal como de costume naquele horário. Entre tantos decibéis, entretanto, fazia silêncio. Até que o homem que mal-cheirava acenou-me a mão, diante daqueles estranhos, calando ainda mais os calos da minha língua e, cansado, bocejou "boa tarde, cavalheiro".

2 comentários:

Anônimo disse...

é como a solidão.
um sentimento de silêncio inibido com gritos internos.
ou quase isso.

insPIRADOR.
adoro-te.

Luciana Bem Portela disse...

Hummmmm, mais um espaço para expressão! Maravilha!
:)