segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Acontece

Ele já estava endividado. A casa prestes a ser hipotecada. Carro na oficina e com o seguro expirado. A mulher, desesperada, sem saber como pagar o colégio do menino. O telefone tocava cobranças e mais compromissos. Voltar para a casa dos pais seria só o referendo da humilhação. Apostou na Mega Sena, procurou a Universal, conversou com um bêbado na esquina, maquinou um roubo ao banco, leu auto-ajuda, fez promessa de largar cigarro e o vício de xingar de negro, mesmo sabendo que seria impossível. Escreveu uma carta para Deus e depois se envergonhou do que tinha feito. Não chegava pedido na loja, além de não ter mais como repor o estoque. Dignidade de homem com a corda no pescoço é se matando mesmo. No dia seguinte, noticiaram a tragédia: "Dono de funerária se mata por dívidas, e falta caixão na sua empresa".

4 comentários:

MariaClara disse...

it's little ironic, don't you think?!


;*

Ps: adouro hitorias [ficticias, que fique claro] que terminam com cordas e tragedias.. tenho uma assim.. depois te mostro!

Anônimo disse...

é foda não ter caixão pra enterrar-se.
mas foda mesmo, e se ver sem saída.
suicidar a alma só ajuda a suicidar o corpo.

Rafael Gomes disse...

Piada mórbida por piada mórbida, imagina aí a manchete: "Terapeuta deprimido se mata por não ter com quem desabafar".

Leonardo Xavier disse...

Eu achei esse seu micro-conto fantástico que a vida é meio assim, cheia de pequenas tragédias cômicas.