Quem se atreve a escrever mais de três textos passa, certamente, por uma situação simples, se o cidadão tiver a cara-de-pau de responder aquilo que o outro não espera ouvir. "Você costuma escrever assim apenas quando está triste?". Contudo, se o companheiro se deixar levar pela pergunta, lá se vão dias e dias pensando nisso e nada mais - conheço um amigo que partiu com esse dilema e nunca mais voltou. Sem falar que a poesia não brota nem em forma de prosa e muito menos nem em música. Mero silêncio investigativo - às vezes quase vegetativo. Eu já tenho a minha resposta - por favor, não se atreva a me perguntar. É porque me calejei. João Cabral de Melo Neto, poeta pernambucano, mexeu com o que eu penso sobre criação literária, parafraseando: escrever poesia é artesanato, dá-se com o treino e repetição, não precisa de sentimentos. Com licença, mentira pura que me tira do sério! O escritor é antes de tudo um bom "sentidor". Sei que aqui acolá sente dor, mas a tristeza não é regra. Faz tempo que não escrevo pensando unicamente nos meus sentimentos, mas a letra surge de uma fisgada interior; escrever é escultura em alto-relevo de certas sensações. O dentro que se faz fora, na hora do faz de contas mais verossímil. Alguém pode pensar que estou com o ego ferido, e olha que ego ferido de escritor é sempre produtivo, matéria-prima de início de romance introspectivo. Acontece que passado muito tempo estou escrevendo a partir de pura emoção. Senti-me provocado com um comentário de uma mulher, não de uma mulher comum, mas justo daquela que sabe seqüestrar meus pensamentos. Talvez seja por isso que esteja escrevendo com sangue e veias abertas. Ela me rouba o conteúdo cognoscente. Então, o que me resta como "sucata" pra digitar neste calado teclado é o sentir por si só. Como fotografia de ultrassom, queria registrar meus sentido. Sinto muito por pensar quase nada neste instante. Mente vazia e a cama bagunçada, cheia de livros e umas camisas jogadas sem cheiro. Quase meditação oriental com inquietude de Picasso. Quero usar um ponto de exclamação, com o propósito catártico de uma revolução, mas não dá. Espera, que estou quase começando a pensar em imaginar como seria isso. Em vão. É melhor beber um copo d'água ou repirar um pouco com a alma, senão eu piro. Vou desligar o computador pra ouvir, com os poros da pele escancarados, Coldplay. Estou sentindo que em breve terei algum lampejo de pensamento, provavelmente do tipo que prefere não usar a razão...
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
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3 comentários:
acho que nao somos simplismente "sentidores" pois nao só "sentimos dores"...
somos algo entorno do pulsar, do sentir e do olhar..
escrever é como respirar, nao é simples consequencia...
:*
"[...] escrever é escultura em alto-relevo de certas sensações."
Perfeito, Artur.
Sensibilidade abrange agudeza de espírito. Sentir é o resumo de tudo.
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